sergioartstomara
terça-feira, 20 de maio de 2014
Sérgio Nascimento,
Escrevi algumas palavras sobre o que você faz e espero, sinceramente, que esteja a altura do artista que existe em você:
http://bananeirasonline.com/site/artista-ou-obra-de-arte/
Posso apenas lhe afirmar que foi um prazer enorme ter conhecido parte da sua produção!!!
Abraço fraterno,
Alex Xavier
Publicado em quinta-feira, janeiro 30, 2014 ·
Artista ou obra de arte
Aquele que luta com monstros
deve acautelar-se
para não tornar-se também um monstro.
Quando se olha muito tempo para um abismo,
o abismo olha para você.
Friedrich Nietzsche
Andando pela Paraíba, na cidade que já nasceu grande, entre ruas e avenidas de Campina Grande, encontrei a Vila do Artesão – um centro de artesanato. Passei minha tarde entrando numa e noutra lojinha, apreciando o velho e o novo que se despontavam aos meus olhos. A experiência do se perder na cidade proporciona ao viajante inúmeras possibilidades, além de se deparar com uma rua sem saída, pode encontrar caminhos inusitados e viver o que se chama de aventura. Abrindo mão do encontrar-se em nome do se perder, encontrei de chofre uma escultura em madeira que foi o meu objeto de desejo desde o início. Em outro momento posso falar dela e do artista que tive o prazer de conhecer. Mas, no momento, deter-me-ei no espírito de Claude Levi-Strauss, na sua concepção de bricoleur e no artista Sérgio Nascimento, para além das minhas divagações e circunstâncias.
Claude Levi-Strauss faleceu na aurora do século XXI e, entre os pensadores, um dos maiores pensadores do século XX, e por que não dizer, de toda humanidade? Levi-Strauss não foi apenas o fundador do Estruturalismo, mas concebeu substrato de uma antropologia em que o selvagem ganha uma conotação bem diversa daquela apresentada pela antropologia comparativa em que os ditos primitivos estão numa escala inferior ao homem civilizado. Muitos desconhecem suas produções sobre os indígenas brasileiros e sua contribuição para compreensão da nossa cultura. Antes de entrar na Universidade já ouvira falar muito sobre ele, mas no primeiro semestre, na disciplina de Antropologia, ele veio fazer parte do meu mundo, com as aulas do professor José Crispim. O contato com Crispim me levou para dentro e para fora de mim. Nunca mais deixei de ver o homem fora da teia da cultura. Mas foram nas aulas do Mestrado, com minha orientadora Conceição Almeida, que o pensamento de Levi-Strauss saiu das grades da gaiola do conceito de estrutura, entrando de maneira audaz nos domínios da Complexidade. Ceiça, como prefere ser chamada, foi a pessoa que conheci que mais domínio possui sobre o pensamento de Levi-Strauss. Através de suas aulas e orientações Levi-Strauss emergiu com leveza, como se ganhasse asas. Foi ela que me falou sobre o bricoleur e bricolagem. E foi ela também que disse que meu mundo era possível.
Em Antropologia, bricolagem é um objeto individual que é originado de restos de outros, ganhando sua singularidade. Temos como exemplo complexo as culturas do Novo Mundo que alguns chamam de sincréticas ou híbridas. O Bricoleur é o Artista que engendra com sua perspicácia as sobras do que aparentemente não serve mais e delas executa suas obras arte. Assim o faz Sérgio Nascimento, artista paraibano, que tem uma lojinha na Vila do Artesão. Um lugar que pode até mesmo passar desapercebido pelo turista clássico que deseja ver o máximo de coisas nos poucos minutos que tem. Como não me encaixo nesse modelo, muito pelo contrário, extravaso modelos, fiz diferente. Passei toda a tarde vendo as obras e conversando com alguns artistas que estavam nas lojinhas. Vi o movimento de pessoas do lugar levando para Sérgio, lacres de lata de cerveja, punhado de miçangas. Eu mesmo terminei voltando e dando uma imitação de pedra preciosa que encontrei no caminho. Observei os laços de solidariedade que a arte produzida por ele é capaz de criar. A arte de Sérgio lembra os mosaicos bizantinos, o ocidente medieval, as festas populares como as juninas e o Carnaval, é um pedaço de alma nordestina brasileira e termina por dizer sobre a anima do próprio Planeta Terra e do Universo. São cores velhas e novas que emergem do labirinto do artista e acrescentam vida à própria vida.
Sérgio envelhece peças novas, reveste de pedrarias e quinquilharias imagens de santos, enche de fitas coloridas pequenos estandartes, junta peças inimagináveis para concluir cada obra. Ele consegue dar vida aos restos de artefatos, criando novos e únicos artefatos. Fiquei muito tempo olhando, observando e vendo. Pensando em coisas como originalidade num mundo descartável. Pensando em como o artista consegue dar vida ao aparentemente morto. O artista faz a ressurreição como se fosse Deus. O artista sintetiza num objeto o mistério do Universo. Consegue parar os nossos passos. Consegue roubar o nosso olhar. Rouba sem vergonha o que existe de mais sutil em nós. Rouba já segredando que nunca mais seremos os mesmos diante de uma experiência estética. A beleza que o artista traz ao mundo faz inveja aos deuses. É a arte que faz os deuses desejarem ser mortais. E Sérgio fica ali brincando com migalhas, recriando a natureza e atiçando o desejo dos deuses. Levi-Strauss, Ceiça, Sérgio, eu e você: quem somos nós? Andarilhos de mundos sem fim, sempre perdidos, jamais encontrados! O que é a obra de arte? Esta questão deixo exatamente ao cargo do meu leitor a possibilidade de responder (como se houvesse uma solução para tal pergunta). A obra de arte tem sido para mim o próprio abismo, não é à toa que sempre me sinto à beira de um penhasco que a qualquer instante pode desabar.
John Alex Xavier de Sousa
Licenciatura e Bacharelado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN (1993), Especialização em História da Cultura pela UFRN (1996) e Mestrado em Ciências Sociais pela UFRN (1999). Foi professor substituto na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Lecionou no Curso de História, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN). Atualmente é professor do Departamento de Educação, da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, Campus III, Bananeiras. Tem experiência nas áreas de História, Sociologia, Antropologia e Educação.
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